quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Filme: Guardiões da Galáxia (2014)

Recheado de humor, de surpreendentes cenários e de um quinteto fora de série liderado por Chris Pratt e Bradley Cooper, Guardiões da Galáxia emerge de todas as dúvidas e suspeições como um dos blockbusters mais fortes do Verão e da Marvel. “I am Groot” veio para ficar.

Quando a sua mãe morre na sua infância, Peter Quill (Chris Pratt) é raptado por seres alienígenas de uma galáxia distante. Peter cresce para se tornar Star-Lord, um temerário fora-da-lei conhecido e procurado por toda a galáxia. Quando é encarregue de recuperar uma esfera misteriosa que pode alterar o equilíbrio do universo, Peter junta-se a Gamora (Zoe Saldana), Rocket (Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista) e Groot (Vin Diesel) para desfazer os planos maquiavélicos de Ronan (Lee Pace) e Thanos (Josh Brolin). 

Não obstante o sucesso de bilheteira (e a maioria de crítica) de Homem de Ferro, de Thor, de Capitão América e de Os Vingadores, a aposta dos estúdios da Marvel em Guardiões da Galáxia, adaptação cinematográfica de um conjunto de banda desenhada menos conhecido, é potencialmente de risco, capaz de se tornar na pedra no sapato do mundo cinematográfico que o estúdio tem vindo a construir paulatinamente desde 2008. O conceito desta aposta exige mais capacidade de imaginação e predisposição para o elemento fantástico que qualquer entrada anterior. Basta constatar a existência de uma árvore andante e falante (embora o seu vocabulário se reduza a três simples palavras) e de um guaxinim eloquente e rude, além do sem-número de planetas, locais e raças que abundam este projecto, para compreender o nível de abstracção exigido. Tudo parece alinhar-se para transformar Guardiões da Galáxia no derradeiro tiro no pé… mas não podia ser uma suspeição mais longe da verdade.

Incrivelmente divertido, carregado de acção e de personagens memoráveis, Guardiões da Galáxia é a maior vitória da Marvel até ao momento. Se este conceito funcionou, qualquer um a que se proponha no futuro funcionará. O sucesso desta aposta reside totalmente na diversidade e peculiaridade de cada um dos cinco elementos que compõem os correctamente intitulados Guardiões. A narrativa não é particularmente intricada ou inteligente; na verdade, segue o mesmo padrão básico dos restantes títulos da Marvel: um desafio herculano que exige o total sacrifício dos seus protagonistas e que culmina num capítulo final ofuscado por acção excessiva e por actos altruístas exageradamente óbvios. Guardiões da Galáxia não foge a esta fórmula, que amargamente parece cada vez mais obrigatória e imutável.

Felizmente, existe Peter Quill, Gamora, Drax, Groot e, estrela da companhia, Rocket para fazer esquecer a corriqueira narrativa e a ausência de um vilão suficiente e aceitavelmente ameaçador. Mais do que a sua capacidade para produzir planos bonitos e cheios de contagiante energia, James Gunn deve congratular-se pela espontânea e notável união de personagens com idiossincrasias tão próprias, tão fora do comum, que captura primeiramente no argumento que assina com Nicole Perlman e posteriormente com a sua imparável câmara. Guardiões da Galáxia é forte quando o foco de James Gunn permanece no quinteto e fraco quando, por necessidades narrativas pedestres, foge a ele. Thanos pode muito bem ser o grande vilão do mundo cinematográfico da Marvel e Ronan, num escalão inferior, um inimigo poderoso; todavia, a interlocução entre ambos não desperta tanto interesse quanto o filme quer levar a crer. Nesse aspecto, se se libertasse das exigências marvelianas, Guardiões da Galáxia poderia perfeitamente ser mais dirigido para comédia e menos para acção, mantendo a triunfante aposta no humor e na electrizante banda sonora dos anos 80.

No que deve ser o ponto de viragem definitivo da sua carreira, Chris Pratt assume-se como uma estrela, lembrando um jovem Harrison Ford em Guerra das Estrelas. Aliás, e considerando o enquadramento galáctico, Peter Quill parece justamente inspirado em Han Solo, esse outro rebelde e fora-da-lei que também se fazia acompanhar pelos companheiros mais improváveis. Se Chris Pratt dá a cara e o corpo ao manifesto, Bradley Cooper apregoa a sua qualidade entregando a voz ao admirável, inconcebível, Rocket. Zoe Saldana enquanto Gamora, Dave Bautista enquanto Drax e Vin Diesel enquanto Groot não brilham tanto quanto o duo anterior, mas impressionam o suficiente para deixar um encanto duradouro, particularmente Vin Diesel com as mil e uma formas diferentes de proferir “I am Groot”. O restante elenco apesenta-se em bom plano, com destaque para Lee Pace (e a sua fabulosa dicção) e John C. Reilly.  


Se alguma lamentação existe relativamente a Guardiões da Galáxia, para além da narrativa e da exígua vilanagem, é a infeliz pertença ao restante mundo cinematográfico da Marvel. O potencial desta adaptação enquanto um início e um fim em si mesma, ao estilo da saga Guerra das Estrelas, é francamente superior. Guardiões da Galáxia não precisa de cruzar-se com Homem de Ferro, Thor, Capitão América ou Os Vingadores. Está num grau acima, numa galáxia distante, rica, colorida e aventurosa o bastante - e mais ainda - para que continue a existir sozinho, sem os encontros futuros já anunciados. Leva a dizer “I am Groot”.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Filme: O Homem Mais Procurado (2014)

Meticuloso e imersivo, O Homem Mais Procurado é um magnífico thriller, belissimamente filmado. Com excelentes interpretações, o destaque recai num dos derradeiros trabalhos de Philip Seymour Hoffman, novamente brilhante e inspirador, prova do enorme vazio que deixa na sétima arte.

Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), filho de pai russo e mãe tchetchena, entra ilegalmente na Alemanha através do porto de Hamburgo. Issa pretende reclamar a avolumada herança do seu pai deixada no banco de Tommy Brue (Willem Dafoe) e conta com a ajuda da advogada Annabel Richter (Rachel McAdams). A chegada de Issa, considerado terrorista pelos serviços secretos, precipita a investigação alemã de Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman) e a investigação norte-americana de Martha Sullivan (Robin Wright) sobre um suspeito financiador de terrorismo.

Adaptado do romance homónimo do mestre de espionagem John le Carré, O Homem Mais Procurado é um cuidadoso thriller envolvido numa ambiência construída com um clima de vigilância, desconfiança, intriga e mistério. A filmagem sub-reptícia do realizador Anton Corbijn, com ângulos de esguelha e uma câmara inquieta, introduz no espectador a sensação de que é parte integrante da investigação de Günther, um elemento silencioso, um testemunho observante da operação, dos elementos e das vontades em jogo. A sensação de visualizar O Homem Mais Procurado, no seu apropriado ritmo paulatino, é uma de um acto de binge-watching, quando se visualizam seguidamente, sem pausas, todos os episódios de uma série televisiva. Em tal acto, o espectador encontra-se cônscio de que levará tempo para a conclusão da narrativa e de todas as suas ramificações. Todavia, perfeitamente embrenhado na história e no estilo, emprega-o a na expectativa de uma caminhada imersiva e entusiasmante. Nesta maneira, O Homem Mais Procurado podia durar horas sem importunar.

Não dura. Tem obviamente uma duração cinematograficamente adequada. A forma como agarra e embala o espectador na sua viagem por um Hamburgo mais clandestino e sombrio, mais pobre e inseguro, sob os tons da parca iluminação nocturna e da música de suspense, é encorajadora. O interesse é pelo jogo de poderes à vista entre pessoas, convicções e agências governamentais, mesmo quando teoricamente aliadas. Embora, como deixa claro no derradeiro plano do filme, Anton Corbijn coloque o espectador no banco do passageiro, de simples e neutra testemunha, é inevitavelmente estabelecida uma fidelidade com Günther e com a sua investigação. É esta fracção da complexa rede de espionagem que o espectador quer ver triunfar, mesmo que os destinos de Issa e de Annabel, do outro lado do puzzle, possam ficar suspensos no ar. Quando a tensão se acumula e atinge o auge no acto final, todos os destinos e todas as paradas em jogo, a operação de Günther é aquela que ultimamente se quer ver vencedora. Faz o coração bater mais rápido ante a tensão crescente e o tropeção que se sente iminente.    

Talvez parte desta inflexão para o lado de Günther se deva a Philip Seymour Hoffman. Aliás, é totalmente mérito da sua qualidade, maior e mais longa do que a própria vida. A brilhante interpretação de Seymour Hoffman torna a sua morte precoce mais profunda. Discutivelmente, nunca Seymour Hoffman se apresentou mal no grande ecrã. É [na sétima arte, permanece imortal] um actor de método incomparável, um talento de uma geração, absolutamente confiante das suas capacidades interpretativas. Mesmo quando a narrativa de O Homem Mais Procurado parece estagnar, Seymour Hoffman eleva o material à sua disposição e inspira o elenco a magníficas interpretações. Seymour Hoffman nunca deixa nada ao acaso. Enquanto os seus companheiros no grande ecrã procuram um ar aprumado e arranjado, Seymour Hoffman, com a maior das naturalidades, ajeita as calças, coça-se, limpa uma orelha. Uma demonstração de naturalidade tão superior que eleva Seymour Hoffman de um interpretador para um vivedor.

A resolução de O Homem Mais Procurado pode deixar alguma água na boca, mas a forma tentativamente realista que Anton Corbijn emprega não podia permitir outro desfecho que não um em aparente in medias res. Operações secretas como a de Günther nunca são um fim em si mesmas, independentemente dos seus sucessos ou falhanços. Há sempre mais algum jogador em jogo e o fim de uma operação serve apenas para dar lugar ao começo de outra. O Homem Mais Procurado acompanha a operação de Günther enquanto o espião tem controlo dos acontecimentos; quando já não está nas suas mãos, já não interessa sinceramente, nem para a narrativa nem para o espectador. Qualquer outra tentativa de desfecho poderia ter arruinado o filme; aliás, como acaba, parece eternizar Günther no seu acto, o que não é senão a homenagem correcta ao seu intérprete, assim celebrado. 

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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