sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Filme: Planeta dos Macacos: A Revolta (2014)

Matt Reeves assume a herança de Rupert Wyatt sem reservas e, melhorando sobre o já convincente Planeta dos Macacos: A Origem em todos os aspectos, cria em Planeta dos Macacos: A Revolta uma película memorável comandada pela tour de force de Andy Serkis enquanto o carismático Caesar.

Dez anos após a disseminação do que passou a ser designado por vírus símio, a população humana encontra-se quase completamente exterminada. Em São Francisco, onde a propagação do vírus teve origem num laboratório, Malcolm (Jason Clarke) e Dreyfus (Gary Oldman) lideram uma pequena comunidade de sobreviventes. Quando é traçado um plano para trazer independência energética à comunidade, Malcolm aventura-se na floresta de Muir Woods para reactivar uma barragem. Malcolm dá de caras com o grupo símio inteligente (resultante do mesmo vírus) que habita o território, liderado pelo chimpanzé Caesar (Andy Serkis). Caesar mostra-se disponível para ajudar os humanos, mas nem todos na sua tribo, e o bonobo Koba (Toby Kebbell) em particular, concordam com a sua abordagem.  

Depois do sucesso inesperado em 2011 de Planeta dos Macacos: A Origem, que tentou o remake que Tim Burton não conseguiu em 2001 com Planeta dos Macacos, Planeta dos Macacos: A Revolta procura ser a rara sequela que melhora sobre o seu predecessor e lança definitivamente uma saga com pernas para andar. Em todos e mais alguns aspectos, Planeta dos Macacos está mais vivo do que nunca. Se, ao contrário de Tim Burton, Rupert Wyatt compreendeu que a força da saga original, iniciada cinematograficamente em 1968 com a adaptação do romance de Pierre Boulle, se concentrava na raça símia e menos na raça humana, Matt Reeves vai mais longe, entregando o protagonismo por inteiro àqueles que, no fim de contas, dão o nome e o mote à saga. O êxito de Matt Reeves começa por aqui.   

A narrativa de Planeta dos Macacos: A Revolta não divide humanos e símios em duas fracções epistemologicamente claras. Ambas têm razões para as suas acções, para as suas confianças e desconfianças. Ambas querem ter o direito ao seu espaço. A trégua existe; a coabitação tem lugar. Na sua essência, quando a disputa começa, não acontece por uma questão meramente territorial, mas por algo tão basilar como a família, a organização social e a lealdade. Caesar e Malcolm procuram a paz, enquanto Koba e Dreyfus procuram o conflito. A narrativa sugere que nenhum lado é melhor que o outro, que nenhum tem mais direito à terra que o outro. A solução passa efectivamente pela coexistência, pela harmonia; mas é uma solução que esbarrará nos interesses próprios, de um lado e do outro.

Sempre que a tribo de Caesar figura no grande ecrã, Planeta dos Macacos: A Revolta fica riquíssimo de informação, de emoção, de espanto. A forma como a tribo se organizou socialmente e como desenvolveu a sua própria linguagem após os eventos de Planeta dos Macacos: A Origem é nada menos que extraordinária. O efeito perde-se quando o plano desce sobre o que resta em São Francisco da raça humana. Quiçá o filme dispensaria completamente esta interacção. Talvez seja o passo definitivo que falta dar na saga, a novidade que Matt Reeves trará num filme sequente. É um testemunho da indubitável qualidade de Andy Serkis, da Weta e de toda a produção que tal sensação fique a pairar no ar. Toda a emotividade de Andy Serkis transpira através de Caesar, mas nunca deixa Caesar de ser o chimpanzé que deve ser. Andy Serkis domina completamente a arte da motion performance. A força da sua interpretação contagia o restante elenco símio, com Toby Kebbell enquanto o maquiavélico Koba em destaque.

Os efeitos visuais estão de tal forma amadurecidos neste filme que se mesclam incrível e facilmente com os planos da natureza, com a luz e com a sombra, com os objectos móveis e imóveis. O primeiro plano do filme, num close-up de Caesar, demonstra de um zás todas as potencialidades. O pêlo dos símios parece palpável, os movimentos são credíveis. Os estúdios da Weta provam estar, uma vez mais, na vanguarda da tecnologia. Importa que haja, do outro lado, um realizador disposto a arriscar e a puxar as barreiras do improvável. Matt Reeves é esse realizador. O seu trabalho não se deixa restringir por aquilo que pode ou não ser possível através da montion performance. A sua câmara filma a acção com a confiança plena de que o efeito visual será concretizável e que o alto nível de realismo não será colocado em causa. Exemplo da confiança de Matt Reeves é um plano a 360º capturado em cima de um taque, com o caos total instalado à volta, mesclando facilmente efeitos práticos com efeitos visuais. Poderia não ter resultado, mas Matt Reeves nunca parece ter duvidado.   

Por mais que espectaculares, os planos de acção não são o trunfo do filme. O trunfo reside na emoção que Matt Reeves nunca dispensa. Em momentos tão simples mas incrivelmente comovedores e poderosos como o plano em que o filho mais novo de Caesar, ainda criança, sobe ao ombro de Ellie, esposa de Malcolm. É este momento, a par de planos semelhantes, envolvidos na sublime composição de Michael Giacchino, que coloca Planeta dos Macacos: A Revolta noutro patamar, inalcançável para tantos blockbusters: num patamar em que efeitos visuais se colocam quase exclusivamente à disposição da interpretação, da emoção e da narrativa. Do início ao estilo de 2001: Odisseia no Espaço ao fim ao estilo de Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança, Planeta dos Macacos: A Revolta perfila-se entre os melhores registos de ficção científica. O futuro só pode ser auspicioso.

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Filme: Agentes Universitários (2014)

Embora num setting diferente, mas com uma narrativa semelhante, Agentes Universitários é uma cópia de carbono quase perfeita de Agentes Secundários, o que não impede humor e diversão q.b. A inovação é escassa, mas a dupla Jonah Hill e Channing Tatum compensa satisfatoriamente. 

Após o sucesso da sua missão à paisana numa escola do secundário, Jenko (Channing Tatum) e Schmidt (Jonah Hill) pensam que as suas carreiras na polícia só podem ascender. Quando a sua mais recente missão falha redondamente, Jenko e Schmidt regressam a Jump Street e são enviados numa nova missão à paisana, desta feita para a universidade, onde Jenko se torna num popular jogador de futebol americano e Schmidt se envolve com uma jovem artista. 

Assim como o seu predecessor, Agentes Universitários caminha uma linha ténue entre a comédia inteligente e a comédia ao desbarato. Em Agente Secundários, a narrativa caminhava sobre esta linha com equilíbrio, combinando o humor de circunstância com o humor físico da acção alienada. Para o melhor e para o pior, Agentes Universitários repete tal-qualmente a fórmula, sem qualquer adição ou subtracção de maior, mudando apenas o cenário do seu ensaio. O secundário ficou para trás e Jenko e Schmidt, após mais uma missão inicial desastrada, voltam à taskforce Jump Street – agora no número 22 (o número 21 voltou para os seus antigos donos e o número 23 pode ficar vago em breve) – e são enviados à paisana para a universidade para investigar uma nova e perigosa droga que faz furor entre os estudantes. 

A partir deste momento, Agentes Secundários parece querer transformar-se num American Pie refinado, repescando toda a folia do género universitário mas sem nunca enveredar pelos habituais carnavais desgovernados. Afinal, a narrativa continua a tratar-se, na mais ínfima das suas essências, de uma investigação policial. É esta investigação policial que faz com que o filme mantenha os pés assentes na terra quando parece prestes a descambar ravina abaixo, quando por momentos mais longos do que o que seria saudável o espectador se esquece completamente da premissa da história e se questiona, por exemplo, se Jenko poderá tornar-se numa estrela de futebol, ou se Schmidt poderá desenvolver uma relação com Maya. Agentes Universitários não é, todavia, totalmente alheio a este efeito. Emprega-o, aliás, para proporcionar a situação mais hilariante e memorável de todo o filme, envolvendo Schmidt e Maya - uma situação que coloca toda a audiência em polvoroso.

Enquanto esta ocasião de total hilaridade, pelo seu carácter de surpresa, revigora o visionamento de Agentes Universitários, outras, pelo seu carácter de repetição, desgastam-no rapidamente. Exemplo desta dicotomia é a piada recorrente sobre a relação entre Jenko e Schmidt. O diálogo e a forma como interagem com terceiros quer apontar ao espectador a ideia de que os dois agentes são um casal, parceiros no sentido estrito. A primeira vez em que tal é sugerido é admissivelmente engraçado, mas a sua desnecessária e por vezes inoportuna recorrência desgastam velozmente o seu efeito cómico. Por outro lado, a ausência de um antagonista sério e credível coloca pressão excessiva no resultado do desenvolvimento da relação entre os dois agentes. É certo que o conceito de Agentes Universitários e de Agentes Secundários vive da camaradagem entre os seus protagonistas; todavia, nada impediria a existência de uma força contrária presente e ameaçadora o suficiente que colocasse pressão e pedisse sagacidade e soluções hilariantes. A forma como, no acto final, o real narcotraficante cai do céu é um testemunho desta lacuna.

A química entre Jonah Hill e Channing Tatum continua a dar provas do valor da nova geração de comediantes de Hollywood. Hill tem estado pelo papel dramático, enquanto Tatum se perdura no papel de acção. Agentes Universitários mostra que a veia cómica é forte tanto em Hill como em Tatum e que se mantém um trunfo para as suas carreiras em crescendo. Nota para a interpretação de Ice Cube, com uma prestação muito mais segura que a anterior. A realização da dupla Phil Lord e Christopher Miller segue as linhas orientadoras de Agentes Secundários, não inovando muito mais do que já tinham alcançado anteriormente, notando-se porém, particularmente no último acto, os frutos de um orçamento superior. Não será, contudo, pelo orçamento superior que Agentes Universitários atrairá o seu público. Fá-lo-á com comédia e os bons momentos de descontracção… e, nesse sentido, não obstante as suas falhas, o filme garante que o prometido é devido.  

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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